ESPIRITISMO E UMBANDA

FLEUR DE LYS

ESPIRITISMO E UMBANDA

ESPIRITISMO


ESPIRITISMO

ESPIRITISMO 2

A TERCEIRA REVELAÇÃO 


O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

“Não vim destruir a lei.”

O Espiritismo é a ciência nova que vem revelar aos homens, por meio de provas irrecusáveis, a existência e a natureza do mundo espiritual e as suas relações com o mundo corpóreo. Ele no-lo mostra não mais como coisa sobrenatural, mas, ao contrário, como uma das forças vivas e sem cessar atuantes da Natureza, como a fonte de uma multidão de fenômenos até hoje incompreendidos e, por isso mesmo, relegado para o domínio do fantástico e do maravilhoso.

O Espiritismo é a chave com o auxílio da qual tudo se explica com facilidade.

A lei do Antigo Testamento está personificada em Moisés; a do Novo Testamento está personificada no Cristo. O Espiritismo é a Terceira Revelação da Lei de Deus, mas não tem a personificá-la nenhuma individualidade, porque é fruto do ensino dado, não por um homem, mas pelos Espíritos, que são as vozes do Céu, em todos os pontos da Terra, e por uma multidão inumerável de intermediários.

Portanto, o Espiritismo é obra do Cristo, que Ele mesmo preside, assim como preside, conforme igualmente o anunciou, à regeneração que se opera e prepara o Reino de Deus na Terra.

Um dia, Deus, em sua inesgotável caridade, permitiu que o homem visse a verdade transpor as trevas. Esse dia foi o do advento do Cristo. Depois da luz viva, as trevas voltaram. Após alternativas de verdade e obscuridade, o mundo novamente se perdia. Então, semelhantes aos profetas do Antigo Testamento, os Espíritos se puseram a falar e a vos advertir. O mundo está abalado em seus alicerces; o trovão ribombará. Sede firmes!

(Allan Kardec, tradutor Evandro N. Bezerra, O Evangelho segundo o Espiritismo, 2ª edição, 2ª reimpressão, Federação Espírita Brasileira, Brasília/DF 2014, 39/40, 43.)


Desde cinquenta anos se tem estabelecido uma íntima e frequente comunicação entre o nosso mundo e o dos Espíritos. Soergueram-se os véus da morte e, em lugar de uma face lúgubre, o que nos apareceu foi um risonho e benévolo semblante.

Falaram as almas; sua palavra consolou muitas tristezas, acalmou bastantes dores, fortaleceu muita coragem vacilante. O destino foi revelado, não já cruel, implacável como o pretendiam antigas crenças, mas atraente, equitativo, para todos esclarecido pelas fulgurações da Misericórdia divina.

O Espiritismo representa uma fase nova da evolução humana. A lei que, através dos séculos, tem conduzido as diferentes frações da humanidade, longo tempo separadas, a gradualmente aproximar-se, começa a fazer sentir no Além os seus efeitos. Os modos de correspondência que entretêm na Terra os homens vão-se estendendo pouco a pouco aos habitantes do mundo invisível, enquanto não atingem, mediante novos processos, as famílias humanas que povoam as terras do Espaço.

O Espiritismo não é somente a demonstração, pelos fatos, da sobrevivência; é também o veículo por que descem sobre a humanidade as inspirações do mundo exterior.

Com o Espiritismo, as faculdades, que foram outrora o privilégio de alguns, se difundem por um grande número. A mediunidade se propaga; mas de par com as vantagens que proporciona, é necessário estar advertido dos seus escolhos e perigos.

Há, na realidade, dois Espiritismos. Um nos põe em comunicação com os Espíritos superiores e também com as almas queridas que na Terra conhecemos e que foram a alegria da nossa existência. É por ele que se efetua a revelação permanente, a iniciação do homem nas leis supremas. É a fonte pujante da inspiração, a descida do Espírito ao envoltório humano, ao organismo do médium que, sob a sagrada influência, pode fazer ouvir palavras de luz e de vida, sobre cuja natureza é impossível o equívoco, porque penetram e reanimam a alma e esclarecem os obscuros problemas do destino.

Há, em seguida, um outro gênero de experimentação, frívolo, mundano, que nos põe em contato com os elementos inferiores do mundo invisível e tende a amesquinhar o respeito devido ao Além. É uma espécie de profanação da religião da morte, da solene manifestação dos que deixaram o invólucro da carne.

Força, entretanto, é reconhecer: ainda esse Espiritismo de baixa esfera tem sua utilidade. Ele nos familiariza com um dos aspectos do mundo oculto. Os fenômenos vulgares, as manifestações triviais fornecem às vezes magníficas provas de identidade; sinais característicos se evidenciam e forçam a convicção dos investigadores. Não nos devemos, porém, deter na observação de tais fenômenos senão na medida em que o seu estudo nos seja proveitoso e possamos exercer eficiente ação sobre os Espíritos atrasados que a produzem.

O vasto império das almas está povoado de entidades benfazejas e maléficas; elas se desdobram por todos os graus da infinita escala, desde as mais baixas e grosseiras, vizinhas da animalidade, até os nobres e puros Espíritos, mensageiros de luz, que a todos os confins do tempo e do Espaço vão levar as irradiações do pensamento divino. Se não sabemos ou não queremos orientar nossas aspirações, nossas vibrações fluídicas, na direção dos seres superiores, e captar sua assistência, ficamos à mercê das influências más que nos rodeiam, as quais, em muitos casos, têm conduzido o experimentador imprudente às mais cruéis decepções.

Se, ao contrário, pelo poder da vontade, libertando-nos das sugestões inferiores, subtraindo-nos às preocupações pueris, materiais e egoísticas, procuramos no Espiritismo um meio de elevação e aperfeiçoamento moral, poderemos em tal caso entrar em comunhão com as grandes almas, portadoras de verdades; fluidos vivificantes, regeneradores nos penetrarão; alentos poderosos nos elevarão às regiões serenas donde o Espírito contempla o espetáculo da vida universal, majestosa harmonia das leis e das esferas planetárias.

As revelações de Além-túmulo são concordes em um ponto capital: depois da morte, como no vasto encadeamento de nossas existências, tudo é regulado por uma lei suprema. O destino, feliz ou desgraçado, é a consequência de nossos atos. A alma edifica por si mesma o seu futuro. Por seus próprios esforços se emancipa das materialidades subalternas, progride e se eleva para a luz divina, sempre mais intimamente se identificando com as sociedades radiosas do Espaço, e tomando parte, por uma colaboração constantemente mais extensa, na obra universal.

O Espiritismo oferece esta inapreciável vantagem de, ao mesmo tempo, satisfazer a razão e ao sentimento.

O Espiritismo amplia a noção de fraternidade. Demonstra por meio de fatos que ela não é unicamente um mero conceito, mas uma lei fundamental da natureza, lei cuja ação se exerce em todos os planos da evolução humana, assim no ponto de vista físico como no espiritual, no visível como no invisível. Por sua origem, pelos destinos que lhes são traçados, todas as almas são irmãs.

Sentimo-nos mais bem amparados na prova, porque aqueles que em vida nos amavam, nos amam ainda além do túmulo e nos ajudam a carregar o fardo das misérias terrestres. Não estamos deles separados senão em aparência. Na realidade, os humanos e os Invisíveis caminham muitas vezes lado a lado, através das alegrias e das lágrimas, dos êxitos e reveses. O amor das almas que nos são diletas nos envolve, nos consola e reanima.

Muitas vezes, são nossos parentes – pai, mãe, um irmão mais velho – que do Além nos vêm guiar e consolar, chamar-nos a atenção às imperfeições de nossa natureza, fazer-nos sentir a necessidade de nos reformarmos.

O Novo Espiritualismo, apoiado na Ciência, é o portador dessa concepção, dessa revelação em que se fundem e revivem, sob as formas mais simples e elevadas, as grandes concepções do passado, os ensinos dos messias enviados pelo Céu à Terra. E aí estará um novo elemento de vida e regeneração para todas as religiões do globo.

Toda crença deve ser baseada em fatos. As manifestações das almas libertadas da carne, e não a textos obscuros e envelhecidos, é que se deve pedir a revelação das leis que regem a vida futura e a ascensão dos seres.

As religiões do futuro terão por fundamento a comunhão dos vivos e dos mortos, o ensino mútuo de duas humanidades.

A solidariedade que vincula os vivos da Terra aos do Céu se estenderá pouco a pouco a todos os habitantes do nosso globo, e todos comungarão um dia em um mesmo ideal realizado.

A alma humana aprenderá a conhecer-se em sua natureza imortal, em seu futuro eterno. Espíritos, de passagem por esta Terra, compreenderemos que o nosso destino é viver e progredir incessantemente, através do infinito dos espaços e do tempo, a fim de nos iniciarmos sempre e cada vez mais nas maravilhas do universo, para cooperarmos sempre mais intimamente na obra divina.

Compenetrados destas verdades, saberemos desprender-nos das coisas materiais e elevar bem alto as nossas aspirações. Sentir-nos-emos ligados aos nossos companheiros de jornada, na grande romaria eterna, ligados a todas as almas pela cadeia de atração e de amor que a Deus se prende e a todos nos mantém na unidade da vida universal.

Acima das pequenas pátrias terrestres veremos desdobrar-se a grande pátria comum: o céu iluminado.

De lá nos estendem os braços os Espíritos superiores. E todos, através das provas e das lágrimas, subimos das obscuras regiões às culminâncias da divina luz. O carreiro da misericórdia e do perdão está sempre franqueado aos culpados. Os mais decaídos podem-se reabilitar, pelo trabalho e pelo arrependimento, porque Deus é justiça; Deus é amor.

Assim a revelação dos Espíritos dissipa as brumas do ódio, as incertezas e os erros que ainda nos envolvem. Faz resplandecer sobre o mundo o grande sol da bondade, da concórdia e da verdade!

(Léon Denis, No Invisível, 26ª edição, 1ª reimpressão, Federação Espírita Brasileira, Brasília/DF – 2014, p. 07/11, e 114/120)


O Espiritismo contém apenas dois aspectos: o metafísico e o científico. O aspecto religioso não pertence à doutrina, pertence apenas ao homem, de vez que foi este que formou a religião.

Cristo veio à Terra para implantar, naquela humanidade atrasada, as normas efetivas das grandes Leis Cósmicas de redenção espiritual.

Passaram-se dois mil anos e a humanidade continua na mesma ignorância dos valores eternos, agravada pelo desprezo aos sublimes ensinamentos recebidos naqueles tempos.

Como o processo para a seleção espiritual dos valores conquistados pelo homem se aproximava, o Alto determinou, mais de um século antes dos eventos trágicos começarem, alertar objetivamente toda a humanidade – como última oportunidade para o posicionamento da criatura ao lado do bem.

Com ajuda para esse desideratum, o conhecimento da existência desse mundo desconhecido, que é o mundo dos Espíritos, tornava-se fundamental.

Por isso, o mundo Espiritual localizou-a [a Doutrina Espírita], inicialmente, nas luzes culturais da Europa, esperando que o mundo científico, capacitado para essas pesquisas experimentais, logo se interessasse pela novidade chegada pelas manifestações dos Espíritos e pela análise objetiva de arautos do gabarito de Kardec, Denis…

Hoje, não mais existe a Doutrina de Kardec em terras da velha Europa.

No entanto, nem tudo se perdeu, pois essa mesma doutrina medrou e floresceu intensamente no Brasil desde fins do século XIX.

O descerramento do mundo dos Espíritos – essa fabulosa realidade tornada palpável -, fez com que a humanidade alcançasse em cem anos, no campo da Filosofia e no da Ciência do Espírito, tal progresso como aquele que o homem conquistou nos últimos dois mil anos!

Quando as luzes do Evangelho começaram a despertar as consciências, através das revelações racionais emanadas do mundo espiritual, sobre as consequências das vivências fora e dentro das leis cósmicas, é que verdadeiramente a meta foi definida, o caminho a seguir apontado e as leis espirituais desvendadas.

Quando ela [a Doutrina Espírita] foi estruturada, em meados do século XIX, o Mundo da Espiritualidade Maior planejou todo um processo complexo e muito mais importante do que apenas falar com os mortos. Esse objetivo transcendental constituía-se na “salvação” do maior número possível de criaturas nos momentos angustiosos do “fim dos tempos”.

O interesse do Alto é que o maior número de criaturas mudem o rumo de sua conduta e voltem-se para o Cristo, a fim de não serem banidas da Terra, conforme aconteceu em Capela há quarenta mil anos.

(José Lacerda de Azevedo, Energia e Espírito, Teoria e Prática da Apometria, 5ª ed., Mais Que Nada, Porto Alegre/RS – 2009, p. 26/43)


UMBANDA

UMBANDA

Segundo o espírito ÂNGELO INÁCIO, por meio do médium Robson Pinheiro:

Desde que os negros foram tirados de sua terra, na África, vieram para o Brasil com o rancor e o ódio em seus corações, pois muitos foram enganados pelo homem branco e feitos prisioneiros e escravos, feridos em sua dignidade, distantes da pátria e dos que amavam. Foram transcorrendo os anos de lutas e dores, e o negro mantinha, em seus costumes e na religião, a invocação das forças da natureza, as quais chamavam de orixás, espécie de deuses a quem cultuavam com todo o fervor de suas vidas. Aprenderam com o tempo a se vingar de seus senhores e déspotas, através de pactos com entidades perversas e com a magia negra, que outra coisa não era senão as energias magnéticas empregadas de forma equivocada. Dessa maneira, o culto inicial aos orixás foi se transformando em métodos de vingança, em pactos com entidades trevosas, que assumiam o papel dessas forças da natureza, ou orixás, disseminando o que se chamava de candomblé, que, na época, era um disfarce para uma série de atividades menos dignas no campo da magia.

Com o tempo, foi-se formando uma atmosfera psíquica indesejável no campo áurico do Brasil, que havia sido destinado a ser a pátria do Evangelho redivivo, onde estava sendo transplantada a árvore abençoada do cristianismo pelas bases eternas do espiritismo. A psicosfera criada no ambiente espiritual da nação foi de tal maneira violenta que entidades ligadas aos lugares de sofrimento nas senzalas encarnavam e desencarnavam conservando o ódio nos corações, com exceção daquelas que entendiam o aspecto espiritual da vida.

Assim, a magia negra foi se espalhando em forma de culto pelas terras brasileiras. De norte a sul do país, as oferendas, os despachos, ou ebós, eram oferecidos pelo pai de santo, pelos mestres do catimbó ou de outros cultos que proliferavam a cada dia, criando uma crosta mental sobre os céus da nação.

Nos planos etéricos da vida, reuniram-se então entidades de alta hierarquia com o objetivo de encontrar uma solução para desfazer a egrégora negativa que se formava na psicosfera do Brasil. A magia negra deveria ser combatida, e seus efeitos destrutivos haveriam de ser desmanchados, de maneira a transformar os próprios centros de atividades dos cultos degradantes em lugares que irradiassem o amor e a caridade, única forma de se modificar o panorama sombrio. Havia necessidade de que espíritos esclarecidos se manifestassem para realizar tal cometimento. E, assim, foram se apresentando, uma a uma, aquelas entidades iluminadas que haveriam de modificar suas formas perispirituais, assumindo a conformação de pretos-velhos e caboclos, e levariam a mensagem de caridade através da umbanda, cujo objetivo inicial seria o de desfazer a carga negativa que se abatia sobre os corações dos homens no Brasil. A umbanda seria o elo com o Alto; penetraria aos poucos nos redutos de magia negra ou nos terreiros de candomblé, os quais ainda se mantinham enganados quanto às leis de amor e caridade, e iria transformando, com as palavras de um preto-velho ou as advertências do caboclo, os sentimentos das pessoas.   

Na palavra de um caboclo ou de um preto-velho, a lei de causa e efeito é ensinada por meio de Xangô, que simboliza a justiça; a reencarnação torna-se mais compreensível às pessoas mais simples quando o preto-velho fala de sua outra vida como escravo e da oportunidade de voltar à Terra em novo corpo para ajudar seus filhos.  

(Robson Pinheiro/Ângelo Inácio, Tambores de Angola, 3ª edição, 36ª reimpressão, Casa dos Espíritos, Contagem/MG – 2016, p. 135/139)


Segundo o espírito ÂNGELO INÁCIO, por meio do médium Robson Pinheiro:

Era seu sonho trabalhar na Marinha, principalmente após concluir o curso propedêutico e já contar 17 anos de idade. Contudo, alguma coisa parecia querer modificar seus planos. Algo estranho ocorria em seu interior; vozes pareciam repercutir em sua mente, e ele temia estar ficando louco.

Mesmo assim resolveu que iria ingressar na escola da Marinha. Não poderia voltar atrás com seu sonho. Começou então a caminhada em direção a seu ideal, que se esboçava naqueles dias que marcaram o ano de 1908, início do século XX. Zélio de Moraes era um jovem sonhador.

O jeito era levar o rapaz para uma consulta com o Epaminondas. Era um tio de Zélio, que trabalhava como coordenador do hospício de Vargem Grande.

Nada resolveu. Nova tentativa deveria realizar-se.

Zélio foi encaminhado a um padre conhecido da família. Exorcismos e benzeções foram feitos, mas nada de o demônio sair; em breve chegariam à conclusão de que nada daquilo surtiria efeito. Mesmo o padre desistiu logo, pois percebeu que suas rezas nada valiam para aquele caso.

O rapaz novamente retornou ao lar, após insucessos das tentativas paroquianas.

Outras técnicas e exorcismos foram aplicados, mas o tal demônio de fala mansa não arredava o pé: Zélio não melhorava de jeito nenhum.

A família, desesperada, já procurava qualquer tipo de ajuda. Sem importar de onde vinha, se fosse para ajudar a resolver o caso de Zélio, qualquer auxílio seria bem-vindo.

Um dia, quando Zélio estava no meio de um de seus “ataques”, a família já completamente apavorada resolveu procurar o centro espírita, como último recurso.

Era a Federação Kardecista de Niterói.

Ali chegaram com o rapaz no dia 15 de novembro de 1908, e quem os recebeu foi exatamente o presidente, o Sr. José de Souza.

A princípio a família Moraes ficou bastante inquieta com a situação. Na época, o simples fato de visitar um centro espírita já era algo assustador, devido ao preconceito e ao desconhecimento. Entre uma conversa e outra, descobriram que o Sr. José de Souza era alguém importante na Marinha.

Ali mesmo, na Federação, Zélio de Moraes agitou-se todo, e, como nas demais vezes, deu-se o chamado “ataque” que os familiares tanto temiam.

O presidente, através da vidência, logo percebeu que se tratava do fenômeno da incorporação e que um ou mais espíritos se revezavam falando através do jovem rapaz. Eram manifestações involuntárias, já que o médium não detinha controle consciente sobre o fenômeno.

Conduzido pelo Sr. Souza a uma reunião, Zélio já se encontrava em transe. O dirigente divisava claramente imagens e cenas que ocorriam em torno do médium, e a presença de uma entidade comunicante:

– Quem é você que fala através deste médium? E o que deseja?

– Eu? Eu sou apenas um caboclo brasileiro. Vim para inaugurar algo novo e falar às pessoas simples do coração.

– Você se identifica como um caboclo, talvez um índio, mas eu vejo em você restos de vestes de um sacerdote católico. Não estará disfarçando sua aparência? Vejo-lhe o corpo espiritual.

– Sei que pode me ver. Mas asseguro-lhe que o que você percebe em mim são os sinais de uma outra existência, anterior a esta na qual adquiri a aparência indígena. Fui sacerdote jesuíta, e, na ocasião, meu nome era Gabriel Malagrida. Fui acusado de bruxaria pela Igreja, sacrificado na fogueira da Inquisição por haver previsto o terremoto que destruiu Lisboa em 1755. Mas, em minha última existência física, Deus concedeu-me o privilégio de nascer como um caboclo nas terras brasileiras.

– E podemos saber seu nome?

– Para que nomes? Vocês ainda têm necessidade disso? Não basta a minha mensagem?

– Para nós seria de muita ajuda saber com quem falamos. Quem sabe podemos ajudar mais sabendo também algo mais detalhado?

– Se é preciso que eu tenha um nome, digam que sou o Caboclo das Sete Encruzilhadas, pois para mim não existem caminhos fechados. Venho trazer a aumbandhã, uma religião que harmonizará as famílias, unirá os corações, falará aos simples e há de perdurar até o final dos séculos.

– Mas que religião nova é esta e por que fazer o médium sofrer assim?

A nova religião virá, e não tardará o tempo em que ela falará aos corações mais simples e numa linguagem despida de preconceito. Entre o povo dos morros, das favelas, das ruas e dos guetos, será entoada uma cantiga nova. O povo receberá de seus ancestrais o ensinamento espiritual em forma de parábolas simples, diretamente da boca de pais-velhos e caboclos. Quanto ao que você chama de sofrimento do médium, é apenas uma fase de amadurecimento de sua mediunidade. Vocês é que interpretam como sofrimento; para nós, é apenas uma forma de adaptarmos o aparelho mediúnico ao trabalho que espera por ele. Depois, todo esse incômodo cessará. O que tiver de vir, virá.

– Mas se já existem tantas religiões no mundo e também temos o espiritismo, você acha que mais uma religião contribuirá para alguma coisa positiva? Por que essa forma fluídica de caboclo ou, como você diz, de pai-velho? Isso é necessário?

– Deus, em sua infinita bondade, estabeleceu a morte como o grande nivelador universal. Rico ou pobre, poderoso ou humilde se igualam na morte, mas vocês, que são preconceituosos, descontentes por estabelecer diferenças apenas entre os vivos, procuram levar essas diferenças até além da morte. Por que não podem nos visitar os humildes trabalhadores do espaço se, apesar de não haverem sido pessoas importantes na Terra, também trazem importantes mensagens da Aruanda? Por que não receber os caboclos e pretos-velhos? Acaso não são eles também filhos do mesmo Deus?

– O que você quer dizer com a palavra Aruanda?    

Aruanda é o mundo espiritual, e os trabalhadores da Aruanda são todos aqueles que levantam a bandeira do amor e da caridade.

Depois demais algumas perguntas feitas pelo dirigente da reunião espírita, o caboclo continuou:

Este planeta mais uma vez será varrido pela dor, pela ambição do homem e pelo desrespeito às leis de Deus. A guerra logo irá fazer suas vítimas. As mulheres perderão a honra e a vergonha. Uma onda de sangue varrerá a Europa, e, quando todos acharem que o pior já foi atingido, uma outra onda de sangue, muito pior do que a primeira, envolverá a humanidade, e um único engenheiro militar será capaz de destruir, em segundos, milhares de pessoa. O homem será vítima de sua própria máquina de destruição.

– Vejo que você se faz um profeta…

– Assim como previ o terremoto de Lisboa em 1755, trago hoje em minhas palavras um pouco do futuro do mundo; mas agora já não podem matar o corpo, pois este está morto. Vivo como espírito e como caboclo trago uma nova esperança. Amanhã, na casa onde meu médium mora, haverá uma mesa posta para toda e qualquer entidade que queira ou que precise se comunicar; independentemente daquilo que haja sido em vida, será bem-vinda. Espíritos de sacerdotes, iniciados e sábios tomarão a forma de simples pais-velhos ou caboclos, e levaremos o consolo ao povo necessitado.

– Parece mais uma igreja que você fundará na Terra…

– Se desejar, poderá chamar de igreja; para nós é apenas uma tenda, uma cabana.

– E que nome darão a essa igreja?

Tenda Nossa Senhora da Piedade, pois, da mesma forma que Maria ampara nos braços o filho querido, também serão amparados os que se socorrerem da aumbandhã.

– Por que dar o nome de tenda a essa igreja? Por que inventar novos nomes? Isso não irá complicar mais ainda para a população? – o Presidente José de Souza queria extrair mais alguma coisa da entidade.

As igrejas dos homens e os templos construídos pelo orgulho humano são muito imponentes. Chamaremos de tenda o local de reunião; um lugar simples e humilde, como simples e humildes devemos trabalhar para ser.

No dia seguinte, a família Moraes se reuniria em sua sala e, juntamente com eles, um grupo de espíritas curiosos que chegaram para ver como seria a nova religião.

Aqueles que se sentiram atraídos pelas palavras do caboclo perceberam a arrogância de certos dirigentes e foram obrigados a decidir se ficariam no antigo centro espírita ou se fariam parte da tenda, da nova religião.

Durante os trabalhos, vários médiuns incorporaram caboclos, crianças ou pais-velhos.

E nascia assim o comprometimento de Zélio de Moraes com a aumbandhã ou, simplesmente, umbanda.

Uma religião tipicamente brasileira, considerando-se o tipo psicológico com o qual se apresentam as entidades veneráveis que fizeram da umbanda uma fonte de luz e sabedoria para as pessoas que sintonizam com suas verdades.

(Robson Pinheiro/Ângelo Inácio, Aruanda, Editora Casa dos Espíritos, Contagem/MG – 2011, p. 23/30)


Segundo o espírito PAI JOÃO DE ANGOLA, por meio do médium Wanderley Oliveira:

Na virada do século 19 para o século 20 o Espiritismo consolidou-se no Brasil.

Transporto da França para cá, adotou naturalmente a linguagem e os traços culturais inerentes ao nosso país, sofrendo, nas práticas doutrinárias, um ascendente filosófico católico e um formato europeu, no que diz respeito a se organizar de forma elitista por atrair, a princípio, pessoas cultas.

Essas características com as comunicações mediúnicas de intelectuais, doutores e padres se encontravam no exercício da mediunidade, poucas vezes fugindo dessa produção mais seleta.

A organização do Espiritismo como movimento focado na comunidade obedeceu fortemente a esse formato.

É como se aqueles que trouxeram a doutrina para nosso país fossem, todos eles, grandes missionários com elevação espiritual acentuada, quando, na verdade, eram os espíritos mais comprometidos com as tragédias religiosas dos últimos dois mil anos no planeta, especialmente no Velho Mundo. O orgulho humano adornou de miragens a história do Espiritismo no solo brasileiro.

É aqui que surgem duas medidas maravilhosas dos planetas espirituais que, já antecipando essa possível e quase inevitável elitização e institucionalização das ideias espíritas no Brasil, trouxeram ao nosso país: a Umbanda, em 1908, e Francisco Cândido Xavier, em 1910.

Com a Umbanda, tivemos um canal para os espíritos sábios e simples do coração enriquecerem as fileiras do espiritualismo, bem como abrir canais àqueles que trafegam nos pátios da imortalidade.

No entanto, já na implantação da Umbanda, seu sacerdote e fundador, Zélio de Moraes, foi coibido por pessoas preconceituosas de receber essas entidades. E até hoje, o ranço permanece entre muitos espiritualistas e umbandistas.

Se não fosse a Umbanda, muitos médiuns não teriam vez, muitas pessoas jamais teriam contato com os espíritos e não despertariam para as noções de imortalidade; além disso, a mediunidade nos dias atuais estaria prisioneira das reuniões frias e secretas que se realizariam na maioria das casas espíritas, com o único objetivo de doutrinar – leia-se catequizar – entidades.

A missão da Umbanda é muito similar à de Paulo de Tarso em relação à Casa do Caminho, que foi a de pregar aos gentios e sair do formalismo de Jerusalém, levando o Evangelho e Jesus aos não judeus.

Com Chico Xavier tivemos uma referência moral de humanidade e também de mediunidade livre para incentivar caminhos que, absolutamente, a elite não aprovaria.

Com o tempo, os grupos mais influentes do país se curvaram, a contragosto, às muitas ideias e posturas de Chico, o qual, até o fim de sua vida física, continuou tendo problemas com essa fatia endurecida do movimento espírita.

Bezerra de Menezes e Eurípedes Barsanulfo, assim que desencarnaram, respectivamente em 11 de abril de 1900 e 1º de novembro de 1918, foram convocados pelas equipes celestes e pelo próprio Cristo com o objetivo de compor essa frente de serviço para integração de forças e quebra de barreiras entre Umbanda, Espiritismo e outras religiões.

A partir de então, Caboclos, Pretos-Velhos e, sobretudo, Exus, na condição de Guardiões – com grande capacidade de penetração nas regiões subcrostais -, passaram a compor as equipes e a atuar incógnitos nos centros espíritas porque os Pretos-Velhos e suas equipes eram rejeitados e muitas vezes continuam sendo, com tarja de espíritos atrasados da Umbanda.

Os protetores espirituais que servem a Jesus, há mais de sessenta anos, procuram assiduamente as tendas umbandistas para trabalhos de vulto que nem sempre conseguem executar nas reuniões espíritas por conta do engessamento de conceitos que se estabeleceu nos primeiros setenta anos da chegada dos princípios básicos da doutrina ao Brasil.

Por conta da fidelidade doutrinária exagerada e nociva, que afasta os grupos da espontaneidade, e do desejo de abrir os horizontes do mundo espiritual, boa parte dos grupos doutrinários mediúnicos se transformou em câmaras secretas de contato formal com o mundo espiritual.

Enquanto isso, a Umbanda rasgou os véus da mediunidade, levando ao povo o consolo, a espiritualidade, a fé e a sensibilidade. 

A mediunidade no Espiritismo é acentuadamente mental, as comunicações são quase telepáticas, predominantemente inspirativas, isto é, os espíritos atuam mais sobre a mente dos médiuns, pois a atividade se processa mais no plano intelectivo.

Em razão disso, atuam mais em um gênero de tarefa espiritual, enquanto na Umbanda há uma especialização nos trabalhos do astral inferior contra as falanges do mal.

É da experiência espírita kardecista que os espíritos manifestem-se pelo pensamento, cabendo aos médiuns transmitirem as ideias com seu próprio vocabulário e não totalmente com a característica dos espíritos comunicantes, embora algumas vezes isso ocorra.

A faculdade mediúnica do médium, ou cavalo na Umbanda, é muito diferente do médium kardecista, considerando-se que entre os principais trabalhos da Umbanda está o de atuar nas hordas inferiores do mal, no submundo das energias degradantes.

Os médiuns umbandistas lidam com toda a sorte de tropeços, ciladas, mistificações, magias e demandas contra espíritos sumamente poderosos e cruéis, que manipulam as forças ocultas negativas com sabedoria.

Para se resguardar das vibrações e ataques das chamadas falanges do mal, valem-se dos elementos da natureza, tais como as energias das ervas, das essências, defumações e das oferendas nos diversos reinos da natureza, que são expressões das energias dos Orixás, dos colares imantados e dos rituais de defesa e limpeza da aura física e psíquica, para poderem estar em condições de desempenhar sua tarefa.

Contam com extrema sensibilidade na fé, na proteção dos seus guias e protetores espirituais, em virtude de participarem de trabalhos mediúnicos que atingem a escala da ação dos espíritos das falanges negras, recebendo desses grupos perseguição sistemática.

Por isso, a proteção dos filhos de terreiro é constituída por verdadeiras tropas de choque comandadas pelos exus, conhecedores das manhas e das astúcias das falanges do mal.

Sua atuação é permanente na crosta terrena e vigiam atentamente os médiuns umbandistas contra investidas do mal, certos de que a defesa ainda é precária pela ausência de conduta moral superior, ainda bastante rara entre as melhores criaturas, seja na Umbanda, no Espiritismo ou em que religião for.

Os chefes de legião, falanges, subfalanges, grupamentos, colunas, subcolunas, e integrantes de colunas, também assumem pesados deveres e responsabilidades na segurança e proteção de seus médiuns.

Daí as fortes descargas fluídicas que se processam nos terreiros, após certos trabalhos, com a colaboração das falanges do mar e das cachoeiras, da defumação dos médiuns e do ambiente, bem como por meio da água fluidificada.

Apesar do orgulho dos espíritas que, historicamente, menosprezaram o valor das práticas umbandistas, situando-as como um degrau atrasado na esteira da evolução espiritual, a Umbanda foi uma iniciativa de Jesus e assumiu a função de um Paulo de Tarso nos dias atuais, realizando o serviço cristão por fora dos preceitos incontestáveis criados no movimento espírita em torno do Espiritismo, que foi exageradamente formalizado e cerceado no contato livre com a imortalidade.

A Umbanda abriu os cadeados da mediunidade e seus médiuns mergulharam nos planos astrais inferiores, onde Jesus mais trabalha pela regeneração do planeta.   

A Linha de Direita é composta pelos falangeiros dos Orixás, os Pretos-Velhos, os Caboclos, os Boiadeiros, as Crianças, os Marinheiros, os Baianos, os Orientais, entre outros.

A Linha de Esquerda é o Povo de Rua, os espíritos Guardiões, que são os Exus, as Pombagiras, os Ciganos, os Exus Mirins, as Pombagiras Mirins, os Malandros, entre outros.

(Wanderley Oliveira /Pai João de Angola, Guardiões do Carma – A Missão dos Exus na Terra, Dufaux Editora, 1ª edição, Belo Horizonte/MG – 2017, pág. 66/70, 75/78 e 130/131)


ESPIRITISMO E UMBANDA

UMBANDA 2

Segundo o espírito PAI JOÃO DE ANGOLA, por meio do médium Wanderley Oliveira:

Uma visão real da imortalidade vai revelar o papel dos Guardiões no surgimento do Espiritismo na França, bem como a missão da Umbanda, mais especialmente dos exus, no aparecimento do Espiritismo no Brasil.

O mal organizado agiu com todas as suas cartas para impedir o nascimento da doutrina em solo brasileiro.

Allan Kardec, além da proteção direta do Espírito de Verdade, era assessorado por guardas intergalácticos dos falangeiros do Arcanjo Miguel, seres de outras esferas terrestres que, sob a tutela do Cristo, fizeram a proteção do codificador a fim de que conseguisse consolidar a mensagem espírita no planeta.

As referências sobre esse lado sombrio e sua força de oposição são ignoradas pela maioria dos adeptos espíritas.

O processo não se deu como mera realização de um planejamento de anjos, foi uma guerra entre o bem e o mal.

Existe uma integração muito avançada entre os espíritos da Umbanda e os do Espiritismo em suas atuações no mundo físico. Essa separação no mundo dos homens é uma prova da desatualização de informações acerca das contínuas e profundas mudanças que se operam em nosso plano, desde meados do século 20.

A Umbanda seria a esquerda, para afrontar as sombras que atuam contra a luz, e o Espiritismo seria a direita, abrindo caminhos ao pensamento humano na direção da luz.

Umbanda e Espiritismo, sem dúvida, formam as asas de equilíbrio do processo do Consolador Prometido anunciado pelo Cristo.

(Wanderley Oliveira /Pai João de Angola, Guardiões do Carma – A Missão dos Exus na Terra, Dufaux Editora, 1ª edição, Belo Horizonte/MG – 2017, pág. 127/129)


APOMETRIA, ESPIRITISMO E UMBANDA

ESCADA

A Apometria, usada com amor e por amor, serve gratuitamente a quantos dela necessitam, não importando se os trabalhadores ou atendidos são espíritas, umbandistas, teosofistas, esotéricos, maçons, etc.

(Norberto Peixoto, Apometria – Os Orixás e as Linhas de Umbanda, Editora Besourobox, Porto Alegre/RS – 2015, p. 16)


Segundo o espírito ÂNGELO INÁCIO, por meio do médium Robson Pinheiro:

Mesmo que o conhecimento da apometria capacite tecnicamente os centros e suas equipes mediúnicas a solucionar certos problemas ligados às obsessões complexas, sem conscientização e espírito de pesquisa a técnica falhará, cedo ou tarde.

É preciso colocar coração, vida e motivação superior no trabalho; em outras palavras, amor.

Sem isso, as campanhas do quilo e os passes espíritas ou os rituais e as benzeções da umbanda serão meras muletas psicológicas; práticas repetidas como se fossem fórmulas santificadoras, mas destituídas de eficácia.

(Robson Pinheiro/Ângelo Inácio, Aruanda, Editora Casa dos Espíritos, Contagem/MG – 2011, p. 167)


FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO. (Allan Kardec)
Chico 01
 EDITADO EM 24.05.2018

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